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O DESENHO DA PAISAGEM COMO ELEMENTO POTENCIAL PARA ENCONTROS COM

SER HUMANO E SER CIDADE

Bianca Collin Leopoldino

Diversos são os profissionais que têm como premissas de seus trabalhos a leitura da paisagem, sujeita ao enfoque a ela dado e ao ponto de vista de quem a analisa, ou seja, a leitura é subjetiva, pois depende da percepção, visão de mundo e interpretação de quem a faz, assim como colocado por Ana Beatriz Giovani em Fissura 01 - Um ensaio sobre o direito à paisagem.

A geografia é uma das disciplinas que aborda o conceito de paisagem de maneira ampla, sendo paisagem geográfica a síntese entre paisagens natural e cultural, atribuídos valores referentes ao conteúdo social.

Por paisagem natural, seguindo conceitos de Carl Sauer (1998 [1925]), entende-se como as condições físicas e morfológicas do local, anteriores às intervenções humanas. Mesmo quando estas  intervenções se dão através da própria manipulação da natureza, é considerada “paisagem cultural”. Esta, por sua vez, pode ser definida como “o resultado da ação humana ao longo do tempo, sobre a paisagem natural”.

As maneiras do ser humano se estabelecer no espaço podem ser muitas, e ao se apropriar dele, “humaniza” a paisagem, transforma a natureza em parte integrante de sua cultura, portanto estabelece relação com sua identidade e comportamento social e faz desse espaço um lugar.

Assim, promover paisagem vai muito além de proporcionar áreas verdes públicas em parques, praças ou em instituições públicas. Nela, pode até mesmo nem mais haver área verde e ainda assim configurar uma paisagem que a traga de volta, sujeita a constantes transformações e sobreposições, deixando marcas na história ao longo do tempo.

Os governantes têm, obviamente, responsabilidades e um poder imenso nas mãos, devendo oferecer paisagens qualificadas e integradas que influam positivamente na qualidade de vida da população. No entanto é também necessário criar paisagens em microescala, abrangendo também propriedades privadas, cujo conjunto forma uma macrozona em harmonia com a cidade; partes que compõem o todo: uma grande paisagem é formada pelo conjunto de pequenas outras em constante desenvolvimento, não como algo estático.

“Cada terreno é uma paisagem, um contexto ambiental na sua particularidade, adaptado ao lugar” (LOTUFO, 2002)

Quantos são os profissionais que têm a oportunidade de trabalhar em grandes projetos públicos e que ainda respeitem a paisagem? Muito poucos. É preciso dar importância às demandas do cotidiano, com soluções criativas e promissoras que busquem facilitar questões relacionadas à moradia, educação, alimentação, saneamento, trabalho, lazer, dentre outras, possibilitando à população acesso a projetos de pequena e média escala de qualidade. 

Estas questões cotidianas, normalmente, são atendidas em propriedades totalmente privadas, mas também podem ser atendidas em propriedades privadas que sejam, em partes, acessíveis e acolhedoras ao público, mesmo tendo acesso controlado. As barreiras e restrições não deixam de existir, mas são atenuadas, tendo vida íntima e pública no mesmo espaço, com limites graduais de privacidade e publicidade, repercutindo positivamente nas paisagens urbanas através de projetos privados “mais urbanos”, como é o caso de espaços públicos de propriedades privadas.

Conhecidos pela sigla em inglês “POPS” (Privately Owned Public Spaces - espaços públicos de propriedades privadas) foram muito difundidos em Nova York, cidade pioneira a implementar este sistema, a partir da promulgação da Resolução de Zoneamento de 1961. Os resultados disponibilizados por Bortoli (2016), obtidos a partir de análises feitas pelo próprio Departamento de Planejamento Municipal de Nova York (2015), não foram promissores. Aponta que muitos destes espaços são hoje inacessíveis ou destituídos de componentes atrativos ao uso público. Aproximadamente 16% são ativamente utilizados, 21% são utilizados como breves locais de descanso, 18% são espaços de passagem, 4% estão sendo renovados ou reformados e 41% são de utilidade marginal.

Porém, trata-se de uma iniciativa interessante, com enorme potencial se bem direcionada, se bem planejada. Tanto é que atualmente estão presentes em grandes cidades como São Francisco, Boston, Detroit e Seattle, Toronto, Aachen, Santiago, Hong Kong, Yokohama, Osaka, Tóquio, Bangkok.

São constituídos a partir de incentivos urbanísticos que muito podem contribuir com o desenho da paisagem nas cidades e a qualidade de vida de seus cidadãos. Podem constituir espaços de transição (fruição pública), que se configurem como fronteira de intercâmbio, trocas e permutas, muitos deles com possibilidade de permanência, além de passagem em meio às edificações.

A leitura da paisagem é que direcionará se esses espaços têm aptidão de funcionarem no dia a dia como lugar para contemplar, mini praças para encontros do dia a dia, praticar exercícios físicos, piqueniques, banhos de sol, parquinhos de crianças, local para apresentações, ou apenas de passagem - circulação de pessoas - ou ainda que um comércio de bairro, como padaria, mercadinho, açougue, facilitando a vida dos frequentadores da região.

Ao chamar atenção para a necessidade de paisagens também em âmbitos privados e de trazer o conceito de uso público em propriedade privada, não se trata de se conformar e propor alternativa à sua carência em espaços públicos. ESTES (ESPAÇOS PÚBLICOS) JAMAIS DEVERÃO SER SUBSTITUÍDOS, POR ESPAÇOS PÚBLICOS DE PROPRIEDADES PRIVADAS. Trata-se apenas de uma oportunidade que pode ser aproveitada, acontecendo paralelamente à luta por espaços públicos de qualidade; mas, repetindo, nunca em substituição a estes.

O que se busca são as relações humanas espontâneas que podem se dar em ambientes anteriormente fechados em si mesmos, com o argumento ilusório da segurança, negando a cidade. Novos espaços de encontro e estímulos por maior convivência social qualificam a cidade ao promoverem diversidade social nos ambientes e vitalidade urbana, trazendo também maior segurança local ao atraírem maior circulação de pessoas nas ruas e entre as edificações, além de fomentarem a economia local.

 

Vale ressaltar que mesmo neste modelo voltado à propriedade privada, trata-se de uma ação indireta do Estado, com implantação de normas legais, ambiental e/ou urbanística de incentivos, a fim de direcionar o mercado imobiliário para impactos positivos na paisagem urbana e vida social dos cidadãos. Para os proprietários, além de bonificação, ocorre a valorização dos imóveis, impactando, positivamente, no bem-estar dos frequentadores. A diferença estará entre aqueles que optarão por menores custos, oferecendo o mínimo necessário para ter espaços desse tipo, e os que entenderão o valor de um espaço público atrativo na valorização de seu produto imobiliário. 

Wisnik (2002) traz para discussão conceitos de maior sociabilização nas maneiras de morar, como é o projeto Vila Figalga da arquiteta Cristina Xavier, uma vila fechada ao púplico, mas aberta entre os moradores, cujo projeto possibilitaria o transito de pedestres, uma vez que optassem pela abertura da vila, pois interliga duas ruas no miolo da quadra. Sobre ele se colocou de maneira que atribuo a mesma frase aos projetos privados em geral, lém das moradias, que colaboram com uma paisagem urbana de encontros: "espaços como estes apresentam melhor qualidade, além de serem mais democráticos, pois contrapõem o individualismo, comum no uso dos espaços privados atuais, ao trazer a noção coletiva do uso do espaço para um ambiente privado, através de “fronteiras privativas de sociabilidade”.

Cada agente que atua na construção de cidade, desde o grande até o pequeno, têm o poder de contribuir com a paisagem urbana, ou seja, é possível incorporar e hierarquizar na cidade o acesso à paisagem em todas as esferas, tornando-a mais aberta e diversa, e neste sentido de construção conjunta, há muito que se caminhar.

As questões “por quê?”, “para quem?” e “como” deveriam ser o ponto de partida dos processos de projeto e planejamento urbanos, com um olhar sistêmico, na tentativa de fugir de padrões, convenções e conceitos pré-estabelecidos, a fim de produzir, de forma mais ética, cidades integradas, sobretudo em relação às potencialidades territoriais, sociais e ambientais, que possibilitem maior integração entre seres humanos.

Retomando Wisnik (2002), a proposta é contrapor o imobilismo por parte da maioria dos arquitetos, e outros agentes atuantes em fazer cidade, reféns das exigências redutoras da especulação imobiliária e da ideia de controle na ação projetual. A construção da arquitetura deveria ser menos focada em uma figura única, com sua leitura subjetiva, que é o “arquiteto estrela” (starchtect), mas na coletividade. A interação entre o profissional e os usuários colocaria o arquiteto como um facilitador e não como único autor da obra, e algumas soluções poderiam ser definidas ao longo da construção. Ou seja, haveria no início uma indefinição, resolvida no fazer ao longo do processo.

Iniciativas como esta não têm a presunção de ensinar o mercado com exemplos de "boa arquitetura", mas principalmente pela possibilidade de apresentarem-se ao público como alternativas criativas de soluções, que não àquelas deficientes, oferecidas pelo mercado como obrigatórias. O grande desafio é encarar que os valores vão além do investimento monetário, assumir riscos e acreditar numa população mais consciente, dispostas a investir em mais diversidade cultural, ambiental e obter também retornos econômicos.

 

REFERËNCIAS:

BORTOLI, F.. O lugar do espaço público de propriedade privada na Cidade Contemporânea. IV Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (ENANPARQ). Porto Alegre, 25 a 29 de julho, 2016.

LOTUFO, T. A.. Um novo ensino para outra prática. Rural Studio e Canteiro Experimental, contribuições para o ensino de arquitetura no Brasil. (Dissertação de Mestrado). São Paulo: FAUUSP, 2014.

SAUER, C. O. A.. Morfologia da Paisagem, 1925,  p.  12  a  74.  In:  CORRÊA,  Roberto  Lobato;  ROSENDAHL, Zeny(Org.). Paisagem, tempo e cultura. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. 124p

WISNIK, G. T.. Novos Estudos Cebrap - O espaço coletivo como baliza. Novos Estudos CEBRAP (Impresso) , v. 64, p. 199-204, 2002

ARTE CAPA: cianotipia _ Paola Geoffroy