O CANTEIRO MÓVEL COSTURANDO SABERES E AÇÕES NO TERRITÓRIO

Autoras: Bianca Collin Leopoldino, Cassia Yebra, Ana Beatriz Giovani, Flavia Burcatovsky

Organização: Bianca Collin Leopoldino

 

Atualmente mais de 80% do território urbano brasileiro se reproduz de maneira informal e autoconstruída, apresentando uma ampla cultura construtiva, com valiosos saberes dos agentes envolvidos em processos espontâneos e dinâmicos de construção, um fenômeno pulsante, manifesto em todo o país.

Ao tratar do tema “autoconstrução”, nos referimos a uma arquitetura popular, que se expressa vivamente através de pessoas erguendo, de maneira livre, suas próprias casas, sem o suporte técnico de profissionais da arquitetura.

A falta de recursos, planejamento e conhecimento técnico, no entanto, resulta recorrentemente em edificações irregulares com baixa qualidade arquitetônica, desperdícios na obra e até mesmo riscos para os moradores, ao mesmo tempo que também apresenta soluções e tecnologias criativas, adaptações aos recursos e contexto locais.

Por outro lado, a maioria dos estudantes de arquitetura passam os anos da faculdade realizando projetos fictícios de equipamentos de grande porte, os quais poucos terão a oportunidade de trabalhar depois de formados, como centros culturais, escolas, bibliotecas, museus, edifícios multifuncionais, shopping, sem terem contato com a prática construtiva, sendo nítida a alienação da maior parte desses profissionais diante das reais necessidades da maioria da população. 

No exercício profissional de arquitetura é recorrente o distanciamento entre o desenho arquitetônico e a prática no canteiro de obras, estando dividido o ofício em dois corpos: o ser pensante, no caso o arquiteto, e o ser que executa, o pedreiro e outros prestadores de serviços mais específicos, e os problemas que isso acarreta.

É preciso chamar atenção para a necessidade de costura entre estes corpos, para que todos os profissionais estejam conectados e envolvidos para servirem às demandas do cotidiano. Quando o orçamento é restrito, as soluções criativas são potencializadas, conferindo maior qualidade espacial e poder transformador, principalmente quanto às questões relacionadas à moradia, educação, alimentação, saneamento, trabalho e lazer.

E se a arquitetura saísse dos muros da escola e ocupasse outros espaços, conectando saberes locais aos saberes acadêmicos? uma sala de aula a céu aberto envolvendo moradores locais, estudantes, artesãs, marceneiras, serralheiros, pedreiros, eletricistas, encanadores etc?

As questões “para quem?”, “por quê?” e “como” deveriam ser o ponto de partida dos processos de projeto e planejamento urbanos, sobretudo em relação às potencialidades territoriais, sociais e ambientais, que possibilitem maior integração entre seres humanos e seu habitat.

Faz-se necessário encontrarmos caminhos para maior atuação de arquitetes frente a este contexto, onde hoje não se fazem presente. Nesse sentido, o Canteiro Móvel é uma proposta do nosso escritório colaborativo Sem Muros Arquitetura Integrada, com a intenção de ser um instrumento de facilitação social/territorial através de experiências de arquitetura com o projetar/construir e ensinar/aprender de maneira colaborativa, em contextos reais, visando construções, no mais amplo sentido da palavra. Acreditamos que o compartilhamento de conhecimento é essencial para a manutenção de qualquer cultura e que não é necessário um reconhecimento institucional para tornar o ensino real ou relevante. Assim, pretendemos transformar o Canteiro Móvel em uma escola aberta, diversa e itinerante de arquitetura, um equipamento pedagógico que trabalha com pessoas e processos projetuais e construtivos in loco, respeitando as relações existentes. 

Não se trata de criar o projeto, paralelamente, por lentes distantes e leitura subjetiva de uma figura única em seu escritório fechado e então apresentá-lo pronto para moradores, mas sim, de projetar e construir conjuntamente, propondo imersão, envolvimento e troca de saberes. A interação com os usuários faz dos profissionais de arquitetura facilitadores e muitas soluções são definidas ao longo da obra. As pessoas que constroem podem participar ativamente dos projetos e as pessoas que projetam, por sua vez, podem estar mais presentes e ativas nas obras, aprendendo umas com as outras para, juntas, construírem a partir da realidade. 

Através de um trailer acoplado a um automóvel e equipado com ferramentas de obras e materiais didáticos de projeto e construção, como uma espécie de food truck que estaciona em um lugar e que não só se abre à população e a tudo o que pode surgir desse encontro, mas se faz chegar. É uma oportunidade de levar o canteiro de obras a diversos locais e investigar o fazer arquitetura na prática. Além disso, o propósito é promover e estimular a busca pela simplicidade das soluções, tendo como norte os princípios da permacultura para a gestão energética no território, a partir de cada situação. Assim, os moradores podem se apropriar de técnicas e passam a ter mais autonomia na resolução de problemas e tomadas de decisão.

Algumas atividades de construção inseridas no aprendizado já vêm inovando o ensino de arquitetura e estimulam reflexões sobre ampliar possibilidades de caminhos que aproximem os estudantes de vivências de práticas construtivas, como bons exemplos temos o Canteiro Experimental da FAU-USP e o Canteiro Escola do IAU-USP, que são muito mais que espaços para aprender técnicas, mas sim, ambientes de formação que permitem ao estudante enfrentar problemáticas reais, para então propor soluções.

 

Uma das nossas maiores referências no que diz respeito ao aprendizado teórico/prático é o Rural Studio da Universidade de Auburn, no Alabama, EUA, o qual utiliza uma metodologia que trabalha, simultaneamente, o projeto e a construção dentro de uma comunidade. Sua proposta é ensinar através do “projetar construindo”, chamado de “Design/Build” (Projeto/Construção), onde o projeto arquitetônico é desenvolvido com práticas de canteiro de obras, ao mesmo tempo em que presta serviços à comunidade, ferramenta pedagógica conhecida como “Service Learning”.

Por meio desse processo de projeto/construção, valoriza-se as experimentações, pois ao construir, testa-se a teoria, que é o desenho, o qual passa a ganhar outra dimensão quando feito em conjunto com a prática, em escala real. Percebe-se a responsabilidade do desenho, o qual representa decisões sociais, ambientais e econômicas, reforçando as responsabilidades da profissão, a serviço da qualidade de vida da comunidade local.

Quanto maior o envolvimento dos moradores nos processos construtivos, com participação desde o pensar e projetar espaços até as execuções, maior a percepção em relação a suas próprias necessidades e mais fortalecidos se tornam os laços entre as pessoas e o lugar, trazendo o sentimento de pertencimento e interação na vizinhança. Passam assim a ter um papel muito importante para o desenvolvimento local, com valorização do ser individual e seu coletivo, ou seja, as partes que compõem o todo, de modo que o todo seja muito mais que a soma das partes.

Dependendo do grau de entrosamento das relações humanas do local, existe a possibilidade de ativação de territórios através de múltiplas redes descentralizadas e conectadas, com sistemas de infraestrutura que não dependam do poder público e que possam fortalecer as comunidades, estruturalmente e economicamente. 

Desta forma valoriza-se muito os processos espontâneos e a consequência disso é uma arquitetura de qualidade e que cumpre um relevante papel social e cultural no ambiente em que está inserida, tendo em vista que cada ambiente reflete uma paisagem e que cada paisagem é um recorte, cujo conjunto delas, por sua vez, configura uma cidade. 

“Cada terreno é uma paisagem, um contexto ambiental na sua particularidade, adaptado ao lugar” (LOTUFO, 2002).

Neste sentido, em nível macro, esta iniciativa caminha para facilitar a estruturação do binômio CIDADE/PAISAGEM, em busca do desenvolvimento de urbanidade, na expectativa de que seja replicada por agentes que a ramifiquem em outros espaços integrados, como organismos vivos costurando pessoas, construções e afetos nos territórios.   

"Mas como um movimento pode vir a construir, ao mesmo tempo, corpo, casa e território? Ou como a construção de uma casa pode vir a ser um encontro positivo para quem habita, um “construir é viver”, uma expansão dos corpos a partir de afetos ativos e alegres? " (GUIZZO, 2018)

REFERÊNCIAS:

LOTUFO, T. A. Um novo ensino para outra prática. Rural Studio e Canteiro Experimental, contribuições para o ensino de arquitetura no Brasil. (Dissertação de Mestrado). São Paulo: FAUUSP, 2014.

GUIZZO, Iazana. O construir como afeto: A casa como corpo e não manifesto. Arquitextos. jul. 2018