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RURAL STUDIO – UM NOVO ENSINO PARA UMA OUTRA PRÁTICA

Tomaz Amaral Lotufo

Resumo: O presente artigo aborda uma experiência que vem inovando o ensino de arquitetura ao introduzir atividades de construção no aprendizado: o Rural Studio da Universidade de Auburn, no Alabama, EUA.

Há 20 anos, o Rural Studio utiliza uma metodologia institucionalizada dentro da grade curricular da Faculdade de Arquitetura, onde o projeto arquitetônico é ensinado com práticas de canteiro de obras em comunidades pobres do Alabama. Ao longo dos anos, produziu-se, nestas comunidades, um extenso repertório arquitetônico de habitações sociais com qualidade, que vem demonstrando bons resultados.

Em busca da renovação do ensino de arquitetura no Brasil, com vistas a uma aproximação dos arquitetos às comunidades que vivem em territórios informais – problema crescente nas grandes cidades brasileiras – este artigo faz uma reflexão sobre aspectos da relação entre a produção e a pesquisa de protótipos habitacionais. Busca-se compreender uma experiência acadêmica (ensino), sob o ponto de vista da interlocução entre teoria e prática dentro do curso de Arquitetura. São abordados os três programas desenvolvidos no Rural: 3º. ano, Trabalho Final de Graduação e Extensão, e é feita uma discussão sobre como tais atividades podem contribuir com a experiência brasileira.

Palavras chave: Canteiro Experimental, Ensino de arquitetura, Design Build program, Projeto Participativo, Design de Interesse Publico.

 

 

RURAL STUDIO -A NEW EDUCATIONAL APPROACH FOR ANOTHER PRACTICE.

Abstract: This article discusses an experience that has been innovating the ways of teaching architecture by introducing construction activities in the learning process: the Rural Studio at Auburn University, Alabama, USA.

For 20 years, the Rural Studio has used a methodology institutionalized within the curriculum of the Architecture School, where the architectural design is taught with practical jobsite in poor communities of Alabama. Over the years, there has been, in these communities, an extensive repertoire of architectural quality social housing, which has shown good results.

Seeking renewal of the teaching of architecture in Brazil, aiming at an approximation of architects with communities living in informal areas – a growing problem in large Brazilian cities – this article brings a reflection on aspects of the relationship between production and research of prototypes housing. Therefore, it seeks to understand an academic experience (teaching) from the point of view of the dialogue between theory and practice within the Architecture course. It covers the three programs developed at Rural: 3rd. year, Undergraduate Final Work and Outreach, and a discussion is made of how such activities can contribute to the Brazilian experience.

Key-words: Architectural Education, Design Build Program, Community Design, Public Interest Design

1. INTRODUÇÃO

O Rural Studio é um projeto pedagógico da Escola de Arquitetura da Universidade de Auburn, no Alabama, Estados Unidos, cuja proposta pedagógica é “projetar construindo”. Ele reúne estudantes e professores em um laboratório de ensino, pesquisa e extensão, onde projetos são desenvolvidos com a participação da comunidade e posteriormente a construção de casas e espaços coletivos para assentamentos pobres do sul do país é realizada pelos estudantes.

Com o propósito de aproximar o estudante da realidade social e de experiências práticas de construção, o Rural Studio foi fundado em 1993, por dois professores da faculdade de Arquitetura de Auburn, Samuel Mockbee (1944-2001) e Dennis K. Ruth (1944-2009).

Ele fica sediado em Newbern, a 125km da cidade de Auburn, e seu currículo é organizado de tal forma que os alunos, sob permanente orientação dos professores, projetem edificações que tragam melhorias substanciais para as comunidades.

Samuel Mockbee dirigiu o Rural Studio até o ano de 2001, quando faleceu por leucemia. Deixou, porém, um grande legado de instrutores. Assim, vinte anos depois de sua fundação, o Rural Studio encontra-se em plena atividade, com quase uma centena de projetos em uma das regiões mais pobres do Estado do Alabama.

Para Mockbee, os estudantes que integrariam o Studio fariam mais do que resolver problemas no papel, resolveriam também com as mãos e os músculos. Eles teriam de projetar além de construir casas para os mais pobres dos mais pobres (KATAUSKAS).

Apesar dos desafios de trabalhar com recursos doados e mão de obra não qualificada com projetos desenvolvidos por estudantes de arquitetura, as casas e centros comunitários construídos são bem acabados. Além disso, trazem soluções formais e espaciais bastante criativas, buscando resgatar aspectos simbólicos e de uso que fazem parte da cultura da população atendida. A consequência disso é uma arquitetura rica e que cumpre um relevante papel social e cultural no ambiente em que está inserida.

Um outro aspecto relevante é o fato de que depois do falecimento de Mockbee – o principal colaborador por 8 anos – as obras e atividades continuaram mantendo a trajetória do grupo com o alto nível de qualidade pedagógica e projetual. A coordenação dos trabalhos desde então esta a cargo de Andrew Freear, antigo colaborador.

A partir dessa breve descrição sobre o Rural Studio, este artigo pretende tratar as atividades do grupo e refletir sobre caminhos que ampliem as possibilidades do ensino da Arquitetura no Brasil. Com o foco nas abordagens pedagógicas, busca-se fomentar o debate da formação de profissionais aptos a pensar a cidade no contexto de comunidades que atualmente são pouco atendidas pelos arquitetos.

2. fundamentação

Será que atividades de ensino prático podem ser incorporadas no contexto brasileiro?

A resposta a essa pergunta está em algumas atividades desenvolvidas em Canteiro Experimental em faculdades de arquitetura no Brasil, como é o caso da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS) que, a partir de 2009, iniciou o curso de arquitetura e urbanismo com a proposta de Canteiro Experimental na matriz curricular. Talvez o caso mais bem sucedido seja o do Canteiro Experimental da FAU-USP, que tem um espaço consolidado para práticas pedagógicas com 15 anos de existência e, portanto, abrange um período importante de experiências com um significativo repertório construído. Esse Canteiro Experimental, atualmente, recebe três disciplinas da área de tecnologia, duas curriculares e uma optativa.

Será que professores de outras áreas de concentração do curso de arquitetura também poderiam utilizar esse espaço pedagógico?

No doutoramento do Prof. Reginaldo Ronconi Inserção do Canteiro Experimental nas Faculdades de Arquitetura e Urbanismo, é ressaltado que o Canteiro não se trata de um espaço para aprender técnicas de construção, mas sim um ambiente de formação que, por meio da prática construtiva, permite ao aluno enfrentar problemáticas de diversas disciplinas (RONCONI, 2002).

O texto a seguir demonstra que as atividades práticas do Rural Studio se direcionam também para o curso de projeto, que, no contexto americano, quando somado a construção, é chamado de “Design/Build” (Projeto/Construção).

Além das práticas construtivas no curso de projeto do Rural Studio, existe outro foco que é ensinar e ao mesmo tempo prestar serviços à comunidade, ferramenta pedagógica conhecida como “Service Learning”. Verifica-se que por meio dessa aproximação do estudante com a comunidade, além de desenvolver bons projetos, o arquiteto formado pode ter uma melhor percepção do papel social da arquitetura.

Com os agravantes problemas sociais e ambientais brasileiros, será que o ensino de arquitetura pelo uso de práticas construtivas em comunidades poderá formar arquitetos melhor preparados para responder às necessidades atuais?

Este estudo de caso sobre o Rural Sudio tem como foco analisar a sua proposta conceitual e estrutural dentro do currículo do curso de arquitetura da Universidade de Auburn. Para isso, utilizou-se ampla bibliografia, entrevistas com professores, alunos e equipe do Rural, além do acompanhamento em campo das atividades do grupo ao longo de dois meses

 

2.1 A missão do Rural Studio

No Rural Studio existem duas missões que se complementam, uma pedagógica e outra de serviço à comunidade:

  1. A missão pedagógica é a de ensinar estudantes de arquitetura, a partir da vivência de práticas construtivas, as responsabilidades sociais da profissão do arquiteto. Nas palavras de Samuel Mockbee, “formar além de um arquiteto, um cidadão”.

Para o reconhecimento do papel social do arquiteto, é utilizada uma metodologia que trabalha simultaneamente o projeto e a construção dentro de uma comunidade. O aluno constrói na comunidade aquilo que projetou, tornando-se responsável por sua atividade e percebendo que o desenho representa também um processo de decisões sociais e econômicas. Sendo assim, existe um entendimento do arquiteto a serviço da qualidade de vida da comunidade local.

  1. Em relação à comunidade, o grupo busca desenvolver soluções no que se refere à arquitetura para melhorar as condições de vida das comunidades do Oeste do Alabama nos Estados Unidos.

Os alunos vivem dentro da comunidade estudada. Com isso, eles ficam imersos em uma realidade distante de distrações, podendo focar no projeto e na sua viabilidade.

Além disso, como a localização do Rural Studio é fora da universidade e dentro da comunidade, isso permite que a produção de projetos evolua ao longo do tempo. Os erros e acertos podem ser avaliados, os projetos podem ser desenvolvidos dentro de um plano com várias fases e aumenta a percepção da comunidade em relação a suas próprias necessidades de projetos de arquitetura e urbanismo. Assim, contribuem como clientes com demandas para o desenvolvimento da região.

Nós temos o dever de participar da realidade Social, Politica e Ambiental que nossa comunidade está enfrentando, e isso requer que os arquitetos olhem além da arquitetura para uma maior compressão do todo à que ele pertence. (Samuel Mockbee apud Bell, 2008)

2.2  Aprender construindo em comunidade no Rural Studio

Quando construímos, testamos a nossa teoria, que é o desenho. Podemos testar e reconhecer erros.

É ir além do processo de desenhar, é colocar o desenho no campo e ver ele em três dimensões. Você pode aprender incrivelmente confirmando o que foi pensado e descobrir o que poderia ser diferente. (Marusish, 2012)

No ensino de arquitetura, aprender construindo pode trazer inúmeros benefícios à formação. Diversos depoimentos coletados de alunos e professores do Rural ressaltam a importância que as práticas construtivas têm para uma melhor compreensão da teoria que dá base ao desenvolvimento de um projeto de arquitetura.

Segundo eles, a atividade de desenho ganha outra dimensão. Ao aprender arquitetura construindo os seus próprios projetos, os estudantes se tornam muito mais seguros para projetar e ficam mais à vontade para arriscar, pois têm um maior domínio daquilo que é produzido, e consequentemente se sentem também mais criativos. Por meio desse processo de projeto/construção, existe um espaço experimental no qual o aluno tem a possibilidade de desenvolver algumas propostas e depois testá-las. O processo não se encerra no desenho, e assim o aluno ganha inspiração e maturidade pelo conhecimento gerado na matéria e experimentação.

É possível confirmar esses depoimentos por meio do resultado de alguns projetos desenvolvidos e da série de premiações e publicações que têm marcado a trajetória do grupo.  


A figura abaixo demonstra o “Boys and Girls Club”, construído em Akron, Alabama, uma pequena cidade próxima a Newbern. A obra foi considerada uma das mais bonitas do mundo pela revista Travel + Leisure. (JACOBS, 2011)

 

Figura 1 – Akron Boys and Girls Club – Thesis 2007/2008.


Construir em comunidade possibilita o contato com reais usuários; os projetos são utilizados e depois a ocupação pode ser avaliada. Diante dessa situação, os alunos se sentem ainda mais responsáveis pelo projeto e pela comunidade envolvida. Aprender construindo em comunidade no Rural Studio significa vivenciar os desafios profissionais no mundo real, mas com a segurança do suporte que é dado pela equipe de professores envolvidos. Responder a esses desafios promove no estudante, além da percepção do papel social do arquiteto, a sua capacidade de transformar a realidade por meio da arquitetura.

Para sermos bons arquitetos, precisamos ir além da arquitetura, faz parte do nosso ofício conhecer a vida. Faz parte também ter um envolvimento com o projeto e a obra que te permita ser ao mesmo tempo apaixonado e paciente. Projeto e construção tomam muito tempo e dedicação das pessoas envolvidas,

Em termos pedagógicos, construir leva a esse ponto, para que uma obra se concretize precisa ter muito rigor, pois deverá se sustentar, precisa de paciência, pois existem dias de sol e outros de chuva, os planos mudam com o clima. E precisa de muito envolvimento, pois a cada dia as mudanças são mínimas, mas para que elas aconteçam é necessário que as pessoas estejam presentes e trabalhando. (Barthel, 2012)

3. Currículo do Rural Studio

O Rural Studio oferece, por meio do curso de arquitetura da Universidade de Auburn, três programas distintos (3º ano, 5º ano e Extensão). Para participar dos programas, o processo seletivo é bastante rigoroso: os alunos são escolhidos por um processo de candidatura que enfatiza a relevância de sua experiência pelo portfólio e histórico escolar.

Um dos aspectos mais originais do currículo é a multidisciplinaridade que se cria tendo como base um único projeto coletivo. Os alunos devem aprender rapidamente a se adaptar a um projeto do grupo, a fim de proceder na concepção e construção em tempo oportuno.

As turmas na Escola de Arquitetura da Universidade de Auburn têm de 40 a 50 alunos. O ano escolar é dividido em dois semestres – o primeiro, chamado de outono (Fall Semester), tem início em agosto e termina em dezembro, o segundo, chamado de primavera (Spring Semester), tem início em janeiro e acaba em maio. 

 

3º ano

O primeiro programa é para o 3º ano do curso de arquitetura e é eletivo, a cada semestre são abertas 16 vagas para o aluno de 3º ano que desejar participar do Rural Studio. É um semestre em que a proposta conceitual é que o aluno tenha a oportunidade de viver em um contexto diferente do que está acostumado e que o curso utilize uma outra ferramenta pedagógica para aprender arquitetura, chamada de Projeto/Construção (Design/Build). De maneira geral, essa ferramenta funciona com o equilíbrio entre o projeto em atelier ou aula teórica e a prática construtiva. Ao longo de um semestre do 3º ano, os estudantes desenvolvem um projeto de arquitetura e ao mesmo tempo constroem aquele que foi desenhado pela turma do semestre anterior.

Nesta fase, os alunos têm também a oportunidade de viver coletivamente na sede do Rural – parte do alojamento foi construída pelos próprios estudantes e geralmente são formadas duplas para dividir os quartos. Alguns dias da semana, uma cozinheira faz comida para todos e em outros dias são eles que devem cozinhar. Todo o lixo gerado é selecionado e direcionado para uma grande composteira, lugar onde eles colocam o resíduo orgânico diariamente para que sirva posteriormente como adubo para a horta. Todos esses trabalhos a serviço da coletividade são feitos em equipes que se revezam ao longo da semana. (Semelhante às Brigadas da Escola Nacional F.F.)

Na primeira semana do curso, acontecem algumas atividades práticas de plantio na horta da vila, são chamadas de “RedNecks” ou “pescoços vermelhos”, termo utilizado para se referir ao trabalhador rural. O que é plantado servirá como parte do alimento da turma seguinte.

Quando o aluno está aqui é para que seja uma experiência não só de ensino, mas também de vida, então procuramos trabalhar o sentido de comunidade. Por isso os alunos moram aqui, dividem quarto, banheiro, constroem e convivem com a comunidade. Desta forma, eles têm um semestre para vivenciar isso tudo e sentir o que é fazer parte de uma comunidade. Elena Barthel, professora do 3º Ano.

 

5º ano – Trabalho Final de Graduação

O segundo programa no Rural é para os alunos do trabalho final de graduação (Thesis), no quinto e último ano. O programa é focado em equipamentos comunitários. Nessa etapa, eles trabalham em equipes de três a cinco pessoas para desenvolver um projeto que sirva à comunidade. Os projetos variam desde capelas e centros comunitários a parques e campo de beisebol. São 16 vagas para participar do programa de Thesis e não é necessário que já se tenha cursado o Rural no 3º ano, no entanto, a expectativa é que os alunos já tenham um histórico de envolvimento comunitário, e isso se coloca como um pré-requisito para o ingresso. A proposta desse trabalho de conclusão é que os alunos projetem e construam edificações que beneficiem a comunidade local.

O objetivo nos trabalhos de 5º ano é formar um arquiteto que antes de entrar no mercado de trabalho já tenha vivenciado a realidade profissional, por isso, ao projetar, precisa dialogar com clientes reais, com limite de orçamento, um terreno real e fazer algo que será construído, neste caso, por eles mesmos. Um segundo objetivo é formar um arquiteto cidadão, capaz de dialogar com a comunidade e reconhecer o papel que exerce dentro da sociedade. Para isso, por meio do projeto de arquitetura, busca-se um impacto positivo na comunidade.

Segundo o corpo docente do Rural, para formar um arquiteto cidadão é preciso conhecer muito bem as pessoas e o local de trabalho, e por isso os projetos se realizam na pequena cidade de Newbern e seus arredores dentro de um raio de 35km.

Como resultado da pré-determinação em dialogar com a comunidade e o tempo dedicado pelos professores e alunos para isso, as construções resultantes das teses de 5º ano formam um amplo repertório de projetos de arquitetura, que são muito reconhecidos nos Estados Unidos e na comunidade internacional. Alguns projetos já receberam premiações, foram expostos e publicados. Esse contexto estimula os alunos a desenvolver o projeto de conclusão de curso da melhor maneira possível.

A Publicação de capa da Architectural Record de março/2012 trata do parque de diversões Lyons Park, na cidade de Greensboro. Este equipamento foi projetado e construído nos anos de 2010/ 2011 por alunos do 5º ano.

Em anos anteriores, outros equipamentos também foram construídos no parque: quadras de beisebol, futebol, skate e áreas de convívio. O Lyons Park  se tornou um dos principais espaços públicos da cidade de Greesnboro.

 

Programa de Extensão

A terceira opção de participação no Rural é o programa de pesquisa e extensão – o Outreach Program – que tem como base uma linha de pesquisa em habitação social no Oeste do Alabama. O programa é oferecido para arquitetos recém-formados que podem ser de outras escolas de arquitetura americanas ou de outros países, tem a duração de um ano e o número máximo de quatro alunos. Como nos programas anteriores, a metodologia de trabalho é a de projetar construindo, ou seja, o desenvolvimento do projeto tem momentos de construção de modelos em diversas escalas, inclusive 1:1. Depois de finalizado o projeto, a construção da casa é realizada pelos próprios projetistas.

Para essa linha de pesquisa e extensão em habitação social o nome dado é 20K House, que se deve ao desafio proposto de construir uma casa por 20 mil dólares (aproximadamente 40 mil reais). O nome é baseado no crédito mínimo oferecido nos Estados Unidos para habitação por meio do “502 DirectLoan”, um programa de empréstimo direto fornecido pelo Serviço de Habitação Rural do governo federal americano. Deste valor, 12 mil dólares (60%) irão para materiais e o restante para pagar os construtores.

Porém, os recursos utilizados para a construção dos projetos do 20K House têm como origem doações feitas ao Rural Studio e, por isso, o objetivo é que, uma vez que um modelo seja verdadeiramente bem-sucedido, tais casas sejam vendidas utilizando os recursos da linha de crédito do “502 DirectLoan”.

O 20K House tem um processo de pesquisa que trabalha sobre o desenvolvimento e a construção de protótipos habitacionais para pessoas que vivem sozinhas ou em casal (single family). De acordo com o Censo dos Estados Unidos, um quarto da população do Hale County (distrito onde está localizado Newbern) vive em estado de pobreza. A proposta é chegar a modelos que melhorem as soluções existentes de habitação social para a região predominantemente rural no sul dos Estados Unidos. Esses protótipos são feitos para clientes reais que vivem na casa e acabam tornando possível uma melhor avaliação de melhorias dos protótipos subsequentes.

Desta forma, a 20K House surge para pensar em protótipos de casas que podem ser replicados fora do Rural Studio, que sejam apropriados pela população da região sul dos Estados Unidos e que sirvam como inspiração para políticas habitacionais e iniciativas de ONG’s ligadas ao tema da habitação social. A partir de uma demanda social definida, desde 2004, a cada ano uma nova versão da 20K House é elaborada.

Os princípios utilizados para a concepção da casa são os mesmos que em um processo contínuo de pesquisa. Cada versão busca aperfeiçoar a anterior e trazer novas problemáticas. Como um processo educacional de pesquisa e extensão, cada modelo apresenta ideias quanto ao sistema estrutural, o processo de construção, decisões projetuais e interação com o cliente, neste caso pessoas da comunidade.

4. Discussão e Resultados

Este trabalho estuda um caso referência de ensino por meio da construção na comunidade. Com ele, tem-se o intuito de apresentar novas possibilidades às abordagens de ensino de arquitetura e urbanismo no Brasil tendo em vista os atuais desafios socioambientais.

Para a construção de um espaço pedagógico tendo como referência as características abordadas ao longo deste artigo, primeiramente, é preciso que se tenha clareza de que um programa como o de Design/Build demanda muitos recursos. Além da necessidade de professores, instrutores e técnicos, por ser um trabalho também com construções, o programa exige recursos como ferramentas, matérias-primas, equipamentos e infraestrutura.

No Brasil, esse desafio já foi parcialmente superado. Existem experiências que utilizam a prática construtiva no ensino, em espaços equipados providos de ferramentas e matérias-primas. Desta forma, caberia dar continuidade a esse processo inovador no ensino de arquitetura e explorar ainda mais tal ferramenta pedagógica.

Percebe-se claramente a importância da incorporação dessa abordagem por diversas áreas de concentração do curso de arquitetura ao acompanhar o caso do Rural Studio, que utiliza práticas construtivas no ensino não só de tecnologia, mas também de projeto e no desenvolvimento de pesquisas para habitação social.

O estudo de caso do grupo americano também evidencia que um programa como esse só acontece com uma grande dedicação por parte do corpo de professores. Além da grande responsabilidade que eles têm com os alunos, existe a responsabilidade com a comunidade: se ela não confiar no grupo, o programa deixa de acontecer. Para trabalhar em comunidades, é preciso ser especialmente cuidadoso com promessas de intervenção que não serão cumpridas.

A seriedade por parte dos alunos pôde ser percebida no estudo referente ao programa de Thesis do 5º ano no Rural. Foi constatado que existem muitos casos em que o projeto final de graduação já foi entregue, avaliado e aprovado, mas a construção ainda precisa ser finalizada e os alunos formados continuam por mais um ano construindo o edifício até ver a obra completa. Nos 20 anos de história do programa, não existe um caso de alunos que tenham deixado uma obra inconclusa, fato que demonstra a confiança criada entre os estudantes, os professores e a comunidade.

Tal situação sugere que para fazer um trabalho final de graduação como esse, o curso de arquitetura poderia ter oficialmente um ano a mais. Neste sentido, a conclusão do curso seria, por exemplo, similar a residência médica após o curso de medicina, em que os recém-formados, antes de exercerem profissionalmente a medicina, trabalham em um hospital com supervisão dos professores/médicos. No caso do profissional arquiteto, sugere-se um espaço intermediário entre a escola e o universo profissional, projetando e construindo em situações reais na comunidade com supervisão de professores/arquitetos como o último estágio da formação.

Atualmente, mais de 50% do território urbano se reproduz na informalidade (WHITAKER, 2010, p. 15-6). Espera-se que com essa abordagem pedagógica no processo de formação, os arquitetos dêem maior atenção ao citado “território informal”. A aproximação do arquiteto poderá promover uma produção mais ampla de espaço urbano às comunidades mais pobres com equipamentos comunitários, habitações adequadas ao clima e às necessidades de seus usuários, passeios arborizados e infraestrutura básica como transporte, água e energia. Neste contexto, será possível chamar de cidade aquilo que antes era um território informal.

5. Referencias Bibliográficas

BARTHEL, Elena. Newbern, Alabama, Estados Unidos, 11 out. 2012. Entrevista concedida a Tomaz A. Lotufo. Barthel é professora do Rural Studio.

BELL, B. (2008). Expanding Architecture: Design as Activism. New York: Metropolis Books.

DEAN, A. O., & Hursley, T. (2002). RURAL STUDIO Samuel Mockbee and an Architecture of Decency. New York: Princeton Architectural Press.

DEAN, A. O., & Hursley, T. (2005). PROCEED AND BE BOLD, Rural Studio After Samuel Mockbee. New York: Princeton Architectural Press.

JACOBS, K.  (2011, Fevereiro). World's Most Beautiful Buildings. Acesso em Dezembro 2012. Disponivel em: http://www.travelandleisure.com/articles/worlds-most-beautiful-buildings

KATAUSKAS, T. (2000, Agosto 23). Mockbee Southern Genious. Acesso em Junho 2010, Disponivel em: http://www.architectureweek.com/2000/0823/design_1-1.html

MARUSISH, John. Newbern, Alabama, Estados Unidos, 11 out. 2012. Entrevista concedida a Tomaz A. Lotufo. Marusish é Instrutor do Rural Studio.

RONCONI, R. L. (2002). Inserção do Canteiro Experimental nas Faculdades de Arquitetura e Urbanismo. Tese Doutorado - FAU, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2002.

WHITAKER, J.S. F. (2010). O processo de urbanização brasileiro e a função social da propriedade urbana. Brasília/São Paulo: Ministério das Cidades/Aliança de Cidades.2009. p. 15 - 6. (Ações Integradas de Urbanização de Assentamentos Precários).

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